sábado, 15 de agosto de 2015

Quando o silêncio não chega.

Dois meses de namoro.
Apesar da vergonha ainda se manter, quando estava sozinha com ele, já me sentia mais a vontade. 
Já iniciava beijos, toques, já me amarrava a ele. Acho que agora sim, acreditava que ele estava comigo.
Nem acreditava que tinha já passado tanto tempo.
O ritual era sempre o mesmo, menos neste dia.
Jardim.
- Cátia...
Olhei para cima quando ouvi o meu nome num tom tão sério vindo do Mário
- Sim...
- Podemos ir até a minha casa lanchar, queria falar contigo.
Achei estranho, ele nunca me tinha convidado para casa dele antes.
- Porque? Não pudemos conversar aqui?
- Bem, achei que podiamos lanchar mais a vontade e falavamos sem ninguem a ouvir.
- Ninguem? Os teus pais não estão em casa?
- Eles... andam a preparar umas coisas, e chegam mais tarde a casa.
- Então, queres que vá para tua casa sem os teus pais estarem lá?
- Bem, sim, mas só para estarmos mais à vontade a conversar.
Todos os meus alertas ligaram de repente, sabia que não era uma boa ideia, mas tambem me sentia seduzida pela ideia de conheçer a casa dele.
- Hmmmm e tem de ser hoje?
- Sim tem.
- Está bem, mas por pouco tempo. Não quero os teus vizinhos a falar de mim.
- Não te preocupes, ninguem te vai ver. 
Olhei para ele. parecia diferente, como se ele não me pudesse ver amanhã.
- Vamos lá então.... disse enquanto me estendia a mão.
Ainda fiquei sentada um bocado a olhar para ele, mas finalmente lá fechei o livro e lhe dei a mão.
Andamos no sentido oposto a praia, e passado 30m, estavamos a frente de um portão entre duas casas. Olhei as casas, nenhuma tinha porta da frente, aquele portão parecia a entrada para as duas.
Quando ele o empurrou, vi o que parecia ser uma viela, com muitas casas pequenas onde todas as portas iam dar ali.
Ele sentiu a minha hesitação.
-Não te preocupes... estamos quase a chegar.
Deixei-me guiar por ele, e fui observando. Não era muito diferente de onde vivia, afinal eu tambem passava por portas a caminho da minha.
Chegamos a uma porta pintada de azul, com uma grade do tamanho de uma pequena janela, deduzi que fosse por ali que viam quem era.
Ele abriu a porta e entramos. Mal coloquei o pé dentro da porta, vi uma sala á minha direita, onde estava o sofá e a televisão e uma pequena mesa de abrir atrás dele com quatro cadeiras, em frente uma porta aberta para o que me pareçeu ser a cozinha, e do lado esquerdo um corredor com três portas.
O Mário fechou a porta, e disse:
- Fica a vontade, esta é a minha casa. Aqui é a sala, ali a cozinha.
e dirigindo-se pelo corredor foi dizendo.
- Aqui a casa de banho, o quarto dos meus pais a seguir, e cá no fundo o meu.
E abriu a porta para um quarto, cheio de posters de jogadores de futebol, dos mais variados clubes, e bolas de futebol encostadas a um canto, algumas já bastante usadas e desgastadas, outras ainda novas com autografos.
- Bem já, sabes que gosto de futebol. - disse entrando no quarto.
- Sim, sei. - dizia enquanto sorria por o ver corado ao entrar no quarto.
- Queres comer ou beber algo?
- Que tens?
- Hmmm... tenho de ir ver, mas ainda devo te pão e coca-cola ou outro sumo.
- Pode ser então.
Enquanto ele saia, eu continuava a olhar o quarto. Cama de solteiro, já bastante antiga de ferro, e alta. Mesinha de cabeceira recheada de cromos de futebol. Umas cadernetas a espreitar por debaixo da cama. Não me atrevi a mexer em nada só olhar.
O resto parecia normal, roupeiro meio aberto e remexido, janela pequena, normal para um rapaz.
Sentei-me na cama enquanto esperava.
Não demorou muito até ele chegar com um prato com dois pães e dois copos de coca-cola.
Comemos, comigo a fita-lo todo o tempo. Apreciava a mudança de passo, e o facto de ele estar tão corado enquanto comiamos sentados na cama dele.
Quando acabamos perguntei.
- Quando chegam os teus pais?
Ele olhou o relógio.
- Provavelmente daqui a duas horas.
- Que querias falar comigo Mário?
Ele pegou no prato, agora com migalhas e copos vazios e colocou numa cómoda que tinha perto da janela.
Virou-se para mim e enquanto se dirigia a mim dizia.
- Sabes que gosto de ti.
Senti um aperto. Sim sabia mas ele nunca tinha dito, nem eu.
- Sei?
- Sim... -disse sentando-se e pegando na minha mão.- Eu gosto de ti, muito.
Corei.
- Tu gostas de mim também?
- Sim claro que gosto.
Suspirou, como se precisa-se que eu disse-se aquilo.
- Eu não consigo mais resistir quando estou contigo.
- Resistir?
- Sim, quero abraçar-te sempre, beijar-te, tocar-te. Como agora... Sempre que coras ou te vejo a espreitar por cima do livro para me veres, só te quero abraçar e ficar contigo para sempre.
Mas e se não pudermos ficar juntos?
- Que queres dizer com, não ficarmos juntos?
Ele entrou nos seus pensamentos e de repente parecia que tinha deixado de estar ali.
- Mário??? Mário??? Que queres dizer com isso.
- Hmmm... Nada, esqueçe. Melhor irmos..
- Mas não disses-te que querias falar comigo.
- Sim, mas... falamos noutro dia, os meus pais devem estar a chegar.
- Mas disses-te que so vinham daqui a duas horas.
- Enganei-me... é melhor irmos... eu levo-te ao jardim.
- Mário??? que se passa.
- Não é nada, vamos.
Fiquei com o bichinho, algo se passava e ele queria contar mas não conseguia.
O resto do caminho até ao jardim foi incómodo e silencioso.
Deu-me um beijo de despedida demorado, como se ao quisesse largar.
Ainda voltei a perguntar, se havia algo errado, mas ele só respondeu, até amanhã e não te preocupes.
Fiquei a olhar para ele a afastar-se. Não olhou para trás, o que me fez estranhar mais.

Viver um sonho

Dois adolescentes apaixonados, que puderia correr mal...
Ia ter com ele todos os dias, a mesma hora.
Levava comigo um livro, que fingia ler, sentada no banco, de modo a esconder que o observava enquanto jogava com os amigos.
Sempre que chegava ele ria-se para mim. Sabia bem que nem de uma página eu passava, e que por de cima do livro eu olhava para ele.
Depois daquele dia na praia, que eu ia ter com ele. No inicio, esperava até o jogo acabar, sei que ele me procurava mal chegava, mas eu escondia-me, não queria que os amigos dele me vissem e gozassem, e só no final ia ter com ele.
Um dia:
- Porque te escondes quando chegas? - perguntou ele.
- Hmmm... Bem... Não me sinto muito a vontade com os teus amigos.
- Mas eles ja sabem sobre ti.
- Sabem???? Mas... fico envergonhada. - corando.
- Sim, mas.... podes ver-me do banco, e só venho ter contigo no final do jogo, assim vês-me jogar.
- Já te vejo de onde estou...
- Sim, mas eu não te vejo a ti, e gosto de te ver quando chego.
Corei ainda mais. Ele parecia saber como me convençer.
- Vou tentar, mas não prometo nada.
- Sem promessas. Ok
E cá estou eu... sentada num banco de jardim, com um  livro a tapar-me a cara, ou quase, do qual não passo da mesma página, só para o ver chegar e sorrir para mim. Estou no céu , apesar de no inicio ter ouvido algumas "boquinhas", elas acabaram por desapareçer.
Ficava a ve-lo jogar, cabelo ao vento enquanto corria, olhos brilhantes cada vez que rematava, e o sorriso que me mandava cada vez que marcava, e o quanto eu enterrava a cara no livro, para ninguem me ver corar.
No final, ele despedia-se dos amigos e vinha ter comigo, eu fazia-me sempre de surprendida por ele estar ao pé de mim, como se estivesse muito focada a ler o livro. Normalmente ai, ainda ouvia-mos alguem dizer alguma coisa, mas já estavamos a andar para o nosso local preferido, e não passavam de sussurros no ar.
O silêncio imperava por uns tempos, nunca sabia como começar a conversa.
E ele acabava por me perguntar sempre a mesma coisa.
- Que parte estás do livro?
- AHHHH... o livro, sim .... naquela que a irmã vai falar com o vizinho.
- Não era essa a mesma parte de ontem?
- Hmmm pois... estou com algumas dificuldades em sair dessa página.
- Acredito...-rindo-se
- O que tem tanta piada?
- Nada.
Silêncio
O caminho a praia não era muito longe. O jardim era no meio de um secção de prédios duas ruas abaixo da praia, mas parecia sempre longo.
Mal chegavamos a praia,a paixão não aguentava mais. Mesmo só passando duas ruas, pareciamos sempre acelerar o passo, como se o mais importante fosse o chegar até lá.
Depois de uma zona onde o muro é mais alto e dele sai um aglomerado de rochas, onde dá perfeitamente para sentar sem ser visto na rua, mas com uma vista maravilhosa da praia e do mar.
Ele envolvia sempre o braço nos meus ombros e dizia:
- Estás a gostar de estar comigo?
- Claro... senão não estava.
- Sim, mas... nunca pareçe que estejas a gostar, já estamos juntos a 3 semanas, e nunca te vejo a pegar na minha mão, sou sempre eu a começar.
- Sabes que sou envergonhada.
- Sim, mas estamos sozinhos agora.
Olhei para ele, sei que ele começava sempre a dar o beijo, eu ficava ali a espera, mas tinha vergonha demais para ser eu a dar o beijo. E se lhe acertasse na testa, ou no nariz, ficava completamente envergonhada se ele desata-se às gargalhadas, se eu falha-se.
- Tens de ter mais confiança. - dizia ele.
Olhei para ele, sobrolho meio levantado.
- Ok. Fecha os olhos.
- O quê? Para que queres que...
Interrompi e disse:
- Fechas ou não?
- Está bem. Prontos estão fechados.
Lá olhei para ele, de olhos fechados, apeteçeu-me rir, mas tinha de me concentrar.
Segurei a cara dele com as duas mãos e dei-lhe um beijo.
Ele abraçou-me e segurando em mim, foi-me puxando para ele.
Tentei largar...
- Hey, assim não vale.
- Que foi, sabe tão bem ter-te a dar-me um beijo, quis ter a certeza que não fugias.
- Lá estás tu. - dizia eu corando.
E deixei-me levar.

Silêncios que contam tudo.

Não precisei responder, após um breve silêncio, em que a voz do Mário ecoava na minha cabeça, a minha face decidiu responder o que pensava mas a minha boca não queria dizer.
Vi um sorriso desenhar-se nos seus lábios.
Mário: Queres ir dar uma volta?
Acenei com a cabeça o melhor que podia, de modo a não pareçer uma idiota completa, escondida num canto qualquer a espera de um rapaz.
Saimos os dois em direcção à praia, com os assobios dos amigos dele. E ele a enviar-lhes um olhar matador.
Seguiamos lado a lado, a minha timidez impedia de levantar a cabeça do chão, e pelos vistos a iniciativa dele estava também a sofrer algum bloqueio.
No entanto eu não precisava de palavras para saber o quanto estava a saber bem aos dois.
Paramos por momentos, virados para a praia.
- Então....  moras perto do jardim ? - perguntou ele.
- Sim, passo pelo jardim todos os dias, na vinda da escola. - respondi sem tirar so olhos do chão.
A emoção era avassaladora, os dois sozinhos, a praia, o barulho das ondas.
O coração palpitava tanto que tinha medo, se me vira-se para ele, o meu bater seria denúnciado, sairia do peito e bateria nele.
Senti a sua mão a pegar na minha.
Instintivamente olhei para ele.
- Posso, não posso?
Não, consegui responder.... aqueles olhos prendiam-me, percorriam a minha alma, e iam direitos ao coração, perdi-me neles completamente.
No meio de tudo, sentia-me envergonhada, e tentei mudar de assunto.
- Gosto de te ver jogar. - disse a medo.
- Gostas? Sabes um dia vou ser um grande jogador de futebol. Ando numa escola de futebol e tudo.
   Adoro correr, adoro o sentimento...
Olhava para ele, enquanto ele virado para o mar, falava no seu sonho. a maneira como as suas expressões mudaram quando começou a falar de futebol, como ele brilhava com o entusiasmo, e cada vez me parecia mais atraente, como se eu estivesse enfeitiçada e ele fosse o meu feitiço.
E depois parou e fitou os meus olhos.

Minha mente ficou em branco, só sentia o calor dos lábios dele, quando se colaram aos meus.
Já não existia nada a esconder.
Já não existia nada a negar.
Já só existia eu e ele.


sábado, 3 de janeiro de 2015

Espreitando o amor.

A noite parecia interminável...
E se ele não estivesse no jardim?
E se não quisesse nada comigo?
Mil e uma perguntas surgiam na minha cabeça. O meu coração não parava sempre que lembrava de senti-lo tão perto de mim.
Ai dia.... porque demoras tanto a nascer.
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Lá estavam eles... tinham chegado a meia-hora e estavam a jogar a bola no jardim.
E eu....bem, escondida a observar entre duas lojas fechadas.
Coragem... nem vê-la... Tinha chegado a 1 hora atrás, e ainda esperei sentada num dos bancos a fingir que lia um livro. Mas mal ouvi a bola, escondi-me logo.
Lá estava ele, hoje era o guarda-redes, por isso não precisava de virar muitas vezes a cabeça, ou deslocar-me muito do sitio.
O cabelo loiro semi-comprido dele abanava sempre que ele se atirava a uma bola, não tinha medo de se magoar e eu admirava a sua coragem.
A senhora de uma das lojas chegou e começou a abrir. Ao ver-me ao lado da loja perguntou se estava a espera que abrisse, ao qual respondi que não obrigada, estava só de passagem. Então ela seguiu o que estava a fazer.
Infelizmente aquela pequena conversa foi o suficiente para ser notada no meu pequeno esconderijo. Quando voltei a olhar estavam todos parados a olhar para mim.
Um dos rapazes: Mário a tua namorada chegou.
O que fez com que ele lhe lança-se um olhar ameaçador, o que fez com que o rapaz se recolhesse para junto dos outros.
E começou a caminhar para mim.
Bloqueiei completamente, além de que devo ter ficado mais vermelha que um tomate, depois do exelentissimo comentário do outro idiota.
No entanto, não conseguia tirar os olhos do Mário, enquanto ele apressava o passo para chegar até mim.
Mário: Estavas a minha espera?
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