Dois meses de namoro.
Apesar da vergonha ainda se manter, quando estava sozinha com ele, já me sentia mais a vontade.
Já iniciava beijos, toques, já me amarrava a ele. Acho que agora sim, acreditava que ele estava comigo.
Nem acreditava que tinha já passado tanto tempo.
O ritual era sempre o mesmo, menos neste dia.
Jardim.
- Cátia...
Olhei para cima quando ouvi o meu nome num tom tão sério vindo do Mário
- Sim...
- Podemos ir até a minha casa lanchar, queria falar contigo.
Achei estranho, ele nunca me tinha convidado para casa dele antes.
- Porque? Não pudemos conversar aqui?
- Bem, achei que podiamos lanchar mais a vontade e falavamos sem ninguem a ouvir.
- Ninguem? Os teus pais não estão em casa?
- Eles... andam a preparar umas coisas, e chegam mais tarde a casa.
- Então, queres que vá para tua casa sem os teus pais estarem lá?
- Bem, sim, mas só para estarmos mais à vontade a conversar.
Todos os meus alertas ligaram de repente, sabia que não era uma boa ideia, mas tambem me sentia seduzida pela ideia de conheçer a casa dele.
- Hmmmm e tem de ser hoje?
- Sim tem.
- Está bem, mas por pouco tempo. Não quero os teus vizinhos a falar de mim.
- Não te preocupes, ninguem te vai ver.
Olhei para ele. parecia diferente, como se ele não me pudesse ver amanhã.
- Vamos lá então.... disse enquanto me estendia a mão.
Ainda fiquei sentada um bocado a olhar para ele, mas finalmente lá fechei o livro e lhe dei a mão.
Andamos no sentido oposto a praia, e passado 30m, estavamos a frente de um portão entre duas casas. Olhei as casas, nenhuma tinha porta da frente, aquele portão parecia a entrada para as duas.
Quando ele o empurrou, vi o que parecia ser uma viela, com muitas casas pequenas onde todas as portas iam dar ali.
Ele sentiu a minha hesitação.
-Não te preocupes... estamos quase a chegar.
Deixei-me guiar por ele, e fui observando. Não era muito diferente de onde vivia, afinal eu tambem passava por portas a caminho da minha.
Chegamos a uma porta pintada de azul, com uma grade do tamanho de uma pequena janela, deduzi que fosse por ali que viam quem era.
Ele abriu a porta e entramos. Mal coloquei o pé dentro da porta, vi uma sala á minha direita, onde estava o sofá e a televisão e uma pequena mesa de abrir atrás dele com quatro cadeiras, em frente uma porta aberta para o que me pareçeu ser a cozinha, e do lado esquerdo um corredor com três portas.
O Mário fechou a porta, e disse:
- Fica a vontade, esta é a minha casa. Aqui é a sala, ali a cozinha.
e dirigindo-se pelo corredor foi dizendo.
- Aqui a casa de banho, o quarto dos meus pais a seguir, e cá no fundo o meu.
E abriu a porta para um quarto, cheio de posters de jogadores de futebol, dos mais variados clubes, e bolas de futebol encostadas a um canto, algumas já bastante usadas e desgastadas, outras ainda novas com autografos.
- Bem já, sabes que gosto de futebol. - disse entrando no quarto.
- Sim, sei. - dizia enquanto sorria por o ver corado ao entrar no quarto.
- Queres comer ou beber algo?
- Que tens?
- Hmmm... tenho de ir ver, mas ainda devo te pão e coca-cola ou outro sumo.
- Pode ser então.
Enquanto ele saia, eu continuava a olhar o quarto. Cama de solteiro, já bastante antiga de ferro, e alta. Mesinha de cabeceira recheada de cromos de futebol. Umas cadernetas a espreitar por debaixo da cama. Não me atrevi a mexer em nada só olhar.
O resto parecia normal, roupeiro meio aberto e remexido, janela pequena, normal para um rapaz.
Sentei-me na cama enquanto esperava.
Não demorou muito até ele chegar com um prato com dois pães e dois copos de coca-cola.
Comemos, comigo a fita-lo todo o tempo. Apreciava a mudança de passo, e o facto de ele estar tão corado enquanto comiamos sentados na cama dele.
Quando acabamos perguntei.
- Quando chegam os teus pais?
Ele olhou o relógio.
- Provavelmente daqui a duas horas.
- Que querias falar comigo Mário?
Ele pegou no prato, agora com migalhas e copos vazios e colocou numa cómoda que tinha perto da janela.
Virou-se para mim e enquanto se dirigia a mim dizia.
- Sabes que gosto de ti.
Senti um aperto. Sim sabia mas ele nunca tinha dito, nem eu.
- Sei?
- Sim... -disse sentando-se e pegando na minha mão.- Eu gosto de ti, muito.
Corei.
- Tu gostas de mim também?
- Sim claro que gosto.
Suspirou, como se precisa-se que eu disse-se aquilo.
- Eu não consigo mais resistir quando estou contigo.
- Resistir?
- Sim, quero abraçar-te sempre, beijar-te, tocar-te. Como agora... Sempre que coras ou te vejo a espreitar por cima do livro para me veres, só te quero abraçar e ficar contigo para sempre.
Mas e se não pudermos ficar juntos?
- Que queres dizer com, não ficarmos juntos?
Ele entrou nos seus pensamentos e de repente parecia que tinha deixado de estar ali.
- Mário??? Mário??? Que queres dizer com isso.
- Hmmm... Nada, esqueçe. Melhor irmos..
- Mas não disses-te que querias falar comigo.
- Sim, mas... falamos noutro dia, os meus pais devem estar a chegar.
- Mas disses-te que so vinham daqui a duas horas.
- Enganei-me... é melhor irmos... eu levo-te ao jardim.
- Mário??? que se passa.
- Não é nada, vamos.
Fiquei com o bichinho, algo se passava e ele queria contar mas não conseguia.
O resto do caminho até ao jardim foi incómodo e silencioso.
Deu-me um beijo de despedida demorado, como se ao quisesse largar.
Ainda voltei a perguntar, se havia algo errado, mas ele só respondeu, até amanhã e não te preocupes.
Fiquei a olhar para ele a afastar-se. Não olhou para trás, o que me fez estranhar mais.